Ivermectina e Mebendazol podem ser tratamentos promissores no combate ao câncer
- Adão Marcos Gonçalves Oliveira

- há 3 dias
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O desenvolvimento de novos medicamentos oncológicos é um processo longo, complexo e extremamente caro. Em média, um novo fármaco pode levar mais de uma década para chegar ao mercado, exigindo bilhões de dólares em investimentos e apresentando elevadas taxas de fracasso durante os ensaios clínicos. Diante desse cenário, pesquisadores têm investido cada vez mais em uma estratégia conhecida como reposicionamento de fármacos (drug repurposing), que consiste em investigar novas aplicações terapêuticas para medicamentos já aprovados para outras doenças.
Entre os candidatos mais estudados nos últimos anos estão a ivermectina e o mebendazol, dois medicamentos amplamente utilizados no tratamento de infecções parasitárias. Embora tenham sido desenvolvidos para combater helmintos e outros parasitas, evidências acumuladas ao longo das últimas décadas sugerem que essas substâncias podem exercer efeitos biológicos capazes de interferir no crescimento e na sobrevivência de células tumorais. Diversos estudos pré-clínicos vêm demonstrando atividades anticancerígenas em culturas celulares e modelos animais, despertando interesse crescente da comunidade científica.
Recentemente, um estudo observacional publicado em 2026 trouxe novos dados ao debate ao acompanhar pacientes oncológicos que utilizaram a combinação de ivermectina e mebendazol como terapia complementar. Os resultados repercutiram amplamente nas redes sociais e em diversos meios de comunicação, gerando expectativas sobre uma possível alternativa terapêutica acessível para pacientes com câncer. Entretanto, como ocorre com qualquer descoberta científica, é fundamental analisar os resultados com cautela e compreender suas limitações metodológicas.
O que é a ivermectina?
A ivermectina foi introduzida na medicina humana na década de 1980, marcando um ponto de virada significativo no combate a diversas doenças parasitárias que afetam milhões de pessoas em todo o mundo. Originalmente desenvolvida a partir de substâncias encontradas em uma bactéria do solo chamada Streptomyces avermitilis, a ivermectina demonstrou uma eficácia notável no tratamento de infecções causadas por vermes e ectoparasitas, como piolhos e sarna.
Desde sua introdução, a ivermectina tem sido utilizada para tratar uma variedade de condições, incluindo oncocercose, também conhecida como cegueira dos rios, e linfaticofilariose, que é uma das principais causas de incapacidade em áreas tropicais. A capacidade da ivermectina de eliminar esses parasitas tem sido crucial para a saúde pública, especialmente em regiões onde essas doenças são endêmicas. A administração em massa de ivermectina em campanhas de saúde pública tem contribuído significativamente para a redução da incidência dessas infecções, melhorando a qualidade de vida de milhões de indivíduos.
O impacto da ivermectina foi tão profundo que os seus descobridores, William C. Campbell e Satoshi Ōmura, foram agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina em 2015. Este reconhecimento não só destaca a importância da ivermectina no tratamento de doenças parasitárias, mas também ressalta o valor da pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos. O trabalho deles não apenas transformou a abordagem terapêutica para diversas infecções parasitárias, mas também inspirou novas pesquisas no campo da farmacologia e da medicina tropical.
Nos anos seguintes à sua introdução, a ivermectina continuou a ser objeto de estudos e investigações. Pesquisadores têm explorado seu potencial em outras áreas, incluindo o tratamento de algumas infecções virais e o uso em contextos de doenças emergentes. Embora a ivermectina tenha sido amplamente utilizada e tenha demonstrado eficácia em muitas situações, é importante que seu uso seja sempre orientado por diretrizes médicas e evidências científicas para garantir a segurança e a eficácia no tratamento. Em conclusão, a introdução da ivermectina na medicina humana representou uma verdadeira revolução no tratamento de doenças parasitárias, proporcionando esperança e cura para muitas comunidades afetadas. O reconhecimento de seus descobridores com o Prêmio Nobel de Medicina sublinha a importância dessa descoberta e abre caminho para novas inovações na luta contra doenças infecciosas.
Além de sua ação antiparasitária clássica, pesquisas laboratoriais identificaram diversos mecanismos potencialmente relevantes para a oncologia. Estudos experimentais sugerem que a ivermectina pode interferir em vias celulares relacionadas à proliferação tumoral, induzir apoptose (morte celular programada), modular respostas inflamatórias e influenciar mecanismos imunológicos envolvidos no reconhecimento de células cancerígenas. Também foram observados efeitos sobre células-tronco tumorais, consideradas importantes para a recorrência e resistência ao tratamento. Contudo, a maior parte dessas evidências ainda provém de estudos laboratoriais e modelos animais.
O que é o mebendazol?
O mebendazol é um anti-helmíntico amplamente reconhecido e utilizado há várias décadas no tratamento de verminoses intestinais, como a ascariase, ancilostomose e enterobíase, que são infecções causadas por vermes parasitas que habitam o trato gastrointestinal. Este medicamento atua inibindo a polimerização da tubulina, uma proteína essencial para a estrutura dos microtúbulos, que são fundamentais para a divisão celular e a mobilidade dos parasitas. Como resultado, o mebendazol não apenas paralisa os vermes, mas também impede sua reprodução, contribuindo para a eliminação eficaz dos mesmos do organismo do hospedeiro.
Nos últimos anos, no entanto, o mebendazol ganhou destaque não apenas por sua eficácia no combate a infecções parasitárias, mas também por seu potencial em outras áreas da medicina, especialmente no campo oncológico. O reposicionamento de fármacos, que envolve a utilização de medicamentos já aprovados para novas indicações terapêuticas, tem se mostrado uma estratégia promissora para acelerar o desenvolvimento de tratamentos para o câncer. Vários estudos recentes têm investigado o efeito do mebendazol em células tumorais, revelando que ele pode interferir em processos fundamentais da biologia do câncer, como a angiogênese, a migração celular e a sobrevivência celular.
Pesquisas indicam que o mebendazol pode induzir a morte celular programada (apoptose) em diversos tipos de câncer, incluindo gliomas e câncer de mama, além de potencializar a ação de outros agentes quimioterápicos. Essa nova abordagem terapêutica é particularmente atraente, pois o mebendazol é um fármaco de baixo custo, amplamente disponível e com um perfil de segurança bem estabelecido, o que facilita sua inclusão em protocolos de tratamento oncológico.
Sua principal ação anticancerígena estudada envolve a inibição da polimerização dos microtúbulos, estruturas essenciais para a divisão celular. Curiosamente, esse mecanismo é semelhante ao utilizado por diversos quimioterápicos consagrados na prática clínica. Além disso, pesquisas demonstraram que o mebendazol pode interferir na angiogênese tumoral, reduzir a capacidade invasiva das células cancerígenas, modular vias de sinalização associadas ao crescimento tumoral e estimular respostas imunológicas antitumorais. Revisões científicas apontam que o medicamento apresenta um perfil farmacológico bastante atrativo para estudos oncológicos devido ao seu baixo custo, ampla disponibilidade e histórico de segurança já conhecido.
Além disso, a capacidade do mebendazol de atravessar a barreira hematoencefálica é um fator crucial que abre novas possibilidades para o tratamento de tumores cerebrais, que tradicionalmente apresentam desafios significativos devido à dificuldade de acesso de muitos medicamentos quimioterápicos. A pesquisa sobre o mebendazol continua a se expandir, com ensaios clínicos em andamento para avaliar sua eficácia e segurança em combinação com outras terapias, bem como sua ação em diferentes tipos de câncer.
Em resumo, o mebendazol, que por muitos anos foi visto exclusivamente como um anti-helmíntico eficaz, está se consolidando como um candidato promissor no tratamento do câncer, refletindo a importância do reposicionamento de fármacos na busca por novas opções terapêuticas e na luta contra essa doença devastadora.
O estudo de 2026 que chamou atenção dos pesquisadores
Em abril de 2026 foi publicado o estudo "Real-World Clinical Outcomes of Ivermectin and Mebendazole in Cancer Patients: Results from a Prospective Observational Cohort", disponibilizado na plataforma Zenodo e posteriormente divulgado em repositórios científicos internacionais. O trabalho avaliou 197 pacientes com diferentes tipos de câncer que receberam prescrições off-label de ivermectina e mebendazol por meio de uma plataforma de telemedicina nos Estados Unidos. Os participantes utilizaram cápsulas contendo 25 mg de ivermectina e 250 mg de mebendazol. Após aproximadamente seis meses de acompanhamento, 122 pacientes responderam ao questionário de seguimento utilizado pelos pesquisadores.
Segundo os autores, foi observada uma taxa de benefício clínico de 84,4%. Entre os participantes que completaram o acompanhamento, aproximadamente 15,6% relataram regressão tumoral, 32,8% declararam não apresentar evidências atuais da doença e 36,1% relataram estabilidade clínica. Apenas 15,6% informaram progressão da doença durante o período analisado. Além disso, os eventos adversos relatados foram predominantemente leves e relacionados ao sistema gastrointestinal. Os autores interpretaram esses resultados como um possível sinal clínico favorável, defendendo a realização urgente de ensaios clínicos randomizados para confirmar ou refutar os achados observados.
Por que esses resultados devem ser interpretados com cautela?
Embora os números pareçam impressionantes à primeira vista, é importante destacar que o estudo apresenta limitações significativas. Em primeiro lugar, trata-se de um estudo observacional sem grupo controle. Isso significa que não houve comparação direta entre pacientes que utilizaram os medicamentos e pacientes que não os utilizaram. Consequentemente, não é possível afirmar que os resultados observados foram causados exclusivamente pela ivermectina e pelo mebendazol.
Outro aspecto importante é que os desfechos foram autorrelatados pelos próprios participantes. Em outras palavras, os pesquisadores não realizaram confirmação sistemática por exames de imagem ou avaliações clínicas independentes para todos os casos. Esse tipo de metodologia está sujeito a vieses de memória, interpretação e seleção.
Além disso, muitos participantes estavam recebendo simultaneamente tratamentos convencionais contra o câncer, incluindo quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Outros também utilizavam suplementos nutricionais, mudanças dietéticas e abordagens integrativas diversas. Dessa forma, torna-se extremamente difícil determinar qual intervenção foi responsável pelos resultados observados. Os próprios autores reconhecem essas limitações e enfatizam que os dados devem ser considerados geradores de hipóteses, não evidências definitivas de eficácia terapêutica.
O que dizem os estudos anteriores?
A literatura científica já acumula centenas de estudos laboratoriais demonstrando atividades anticancerígenas potenciais para ivermectina e mebendazol em diferentes tipos de câncer. Entretanto, a grande maioria dessas pesquisas foi realizada em células cultivadas em laboratório ou em modelos animais. A transição entre resultados promissores em laboratório e eficácia comprovada em seres humanos é um dos maiores desafios da pesquisa biomédica. Historicamente, inúmeros compostos apresentaram excelente desempenho em experimentos pré-clínicos, mas falharam quando avaliados em ensaios clínicos rigorosos.
No caso do mebendazol, existem alguns estudos clínicos iniciais sugerindo segurança e potencial terapêutico em determinados tipos de câncer, especialmente tumores cerebrais. Contudo, ainda não há evidências robustas suficientes para sua incorporação como tratamento oncológico padrão. Situação semelhante ocorre com a ivermectina, cuja atividade anticancerígena em humanos permanece sob investigação.
O futuro dessa linha de pesquisa
O interesse por medicamentos reposicionados continua crescendo em todo o mundo. A possibilidade de utilizar fármacos baratos, amplamente disponíveis e com perfil de segurança já conhecido representa uma oportunidade atraente para ampliar o arsenal terapêutico contra o câncer. A ivermectina e o mebendazol surgem como candidatos relevantes dentro desse contexto. Entretanto, ainda é prematuro afirmar que esses medicamentos sejam capazes de curar ou controlar o câncer de forma comprovada.
Os resultados observados no estudo de 2026 devem ser encarados como um ponto de partida para pesquisas futuras. Apenas ensaios clínicos randomizados, controlados por placebo e conduzidos com rigor metodológico serão capazes de determinar se os benefícios observados representam um efeito terapêutico real ou se refletem fatores de confusão inerentes ao desenho observacional do estudo. Até que essas respostas sejam obtidas, a utilização desses medicamentos deve ser discutida individualmente entre pacientes e profissionais de saúde, sempre com base nas melhores evidências científicas disponíveis.
Referências
Hulscher N, Victory K, Thorp JA et al. Real-World Clinical Outcomes of Ivermectin and Mebendazole in Cancer Patients: Results from a Prospective Observational Cohort. Zenodo, 2026. DOI: 10.5281/zenodo.19455636.
Dobrosotskaya IY et al. Mebendazole as a Candidate for Drug Repurposing in Oncology: An Extensive Review of Current Literature. Pharmaceuticals. 2019.
ResearchGate. Real-World Clinical Outcomes of Ivermectin and Mebendazole in Cancer Patients: Results from a Prospective Observational Cohort. 2026.


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