Problema com a Polilaminina: pesquisa brasileira que promete avanço no tratamento de lesões medulares passa por revisão científica
- Adão Marcos Gonçalves Oliveira

- 24 de mai.
- 4 min de leitura

A polilaminina, substância experimental desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para o tratamento de lesões na medula espinhal, voltou ao centro das discussões científicas após a pesquisadora Tatiana Sampaio anunciar que o principal artigo sobre os testes em humanos será revisado antes de uma nova submissão para publicação internacional.
O estudo ganhou grande repercussão nas últimas semanas depois da divulgação do caso de Bruno Drummond, participante da pesquisa que voltou a andar após sofrer uma lesão medular. A recuperação chamou atenção nas redes sociais e despertou esperança em milhares de pessoas com paraplegia e tetraplegia. Como sempre acontece quando ciência encontra internet, parte do público tratou um estudo preliminar como cura definitiva e outra parte decidiu agir como se todo avanço científico fosse conspiração. O equilíbrio continua em estado crítico.

Segundo Tatiana Sampaio, a nova versão do manuscrito incluirá correções técnicas, revisão de gráficos, reorganização de exames e mudanças na apresentação dos resultados clínicos. A pesquisadora afirmou que os ajustes não alteram as conclusões gerais da pesquisa, mas buscam melhorar a clareza e a precisão científica do material. Entre os problemas identificados por especialistas estava um gráfico que associava melhora clínica a um paciente que havia falecido poucos dias após o procedimento experimental. A pesquisadora explicou que ocorreu uma troca de identificação dos participantes durante a organização dos dados. Além disso, imagens de eletromiografia consideradas inadequadas por revisores também serão substituídas na nova versão do artigo.
A polilaminina é baseada na laminina, proteína naturalmente presente no organismo e importante para a sustentação e organização dos tecidos nervosos. A proposta da pesquisa é utilizar a substância como uma espécie de matriz biológica capaz de estimular a regeneração neural e favorecer o crescimento de conexões nervosas após danos na medula espinhal. O projeto é resultado de cerca de duas décadas de pesquisa conduzidas na UFRJ. Antes dos testes em humanos, a substância foi estudada em modelos animais, incluindo cães com lesões medulares. Os resultados observados nos animais motivaram o início das aplicações experimentais em pacientes humanos a partir de 2018.
O estudo preliminar reúne dados de oito pacientes tratados com a substância. Alguns deles apresentaram melhora parcial de movimentos, sensibilidade e controle muscular. Na nova versão do artigo, os pesquisadores pretendem apresentar análises separadas conforme o tipo e o grau da lesão medular, destacando especialmente casos de pacientes torácicos que evoluíram do grau A para o grau C na escala ASIA, classificação internacional usada para avaliar danos na medula espinhal.
Apesar do entusiasmo gerado pelos relatos de recuperação, especialistas apontaram limitações importantes na pesquisa. Entre as principais críticas estão o número reduzido de participantes, a ausência de grupos de controle e a dificuldade de separar os efeitos da polilaminina de outros tratamentos realizados simultaneamente, como cirurgias, fisioterapia intensiva e reabilitação motora prolongada. Pesquisadores também questionaram a confirmação do diagnóstico de lesão medular completa em alguns pacientes. Isso porque determinadas lesões podem apresentar recuperação espontânea parcial ao longo do tempo, tornando mais difícil comprovar exatamente qual parcela da melhora estaria relacionada à substância experimental.
O manuscrito já foi submetido anteriormente a revistas científicas internacionais ligadas à Springer Nature e ao Journal of Neurosurgery, mas acabou rejeitado durante o processo de avaliação por pares. Tatiana Sampaio afirmou que continuará reformulando o artigo até que ele esteja adequado às exigências editoriais e metodológicas das revistas científicas. Mesmo diante das críticas, pesquisadores da área reconhecem que os resultados preliminares merecem investigação aprofundada. Estudos envolvendo regeneração neural costumam exigir muitos anos de validação clínica antes que tratamentos possam ser considerados seguros e eficazes para uso amplo na medicina.
Outro tema que ganhou destaque durante a repercussão da pesquisa foi a questão das patentes da polilaminina. Parte da proteção internacional da tecnologia foi perdida devido aos altos custos de manutenção dos registros, reacendendo debates sobre financiamento científico no Brasil e as dificuldades enfrentadas por pesquisadores nacionais para transformar descobertas acadêmicas em tratamentos médicos acessíveis.
Em 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início do primeiro ensaio clínico formal de fase 1 com a polilaminina. Nessa etapa, o principal objetivo é avaliar a segurança da substância em pacientes com lesão medular aguda. Somente após a conclusão das próximas fases será possível determinar com maior precisão a eficácia do tratamento.
Tatiana Sampaio também reforçou publicamente que a polilaminina ainda não representa uma cura definitiva para paraplegia ou tetraplegia. Segundo a pesquisadora, os estudos continuam em andamento e ainda existem diversas questões científicas que precisam ser respondidas antes de qualquer aplicação clínica em larga escala.
Referências
G1. Pesquisa sobre polilaminina e revisão do artigo científico. Disponível em: [G1 Saúde](https://g1.globo.com/saude/?utm_source=chatgpt.com). Acesso em: 24 maio 2026.
Folha de S.Paulo. Artigo sobre polilaminina apresenta erros e passará por revisão, afirma pesquisadora. Disponível em: [Folha de S.Paulo](https://www1.folha.uol.com.br/?utm_source=chatgpt.com). Acesso em: 24 maio 2026.
Poder360. Pesquisadora afirma que corrigirá artigo sobre polilaminina. Disponível em: [Poder360](https://www.poder360.com.br/?utm_source=chatgpt.com). Acesso em: 24 maio 2026.
UFRJ. Estudos sobre regeneração da medula espinhal e polilaminina. Disponível em: [Conexão UFRJ](https://conexao.ufrj.br/?utm_source=chatgpt.com). Acesso em: 24 maio 2026.
Rede Minerva UFRJ. Proteína experimental e pesquisas em regeneração neural. Disponível em: [Rede Minerva UFRJ](https://redeminerva.pr2.ufrj.br/?utm_source=chatgpt.com). Acesso em: 24 maio 2026.
VEJA Saúde. Discussões científicas e fake news sobre polilaminina. Disponível em: [VEJA Saúde](https://veja.abril.com.br/saude/?utm_source=chatgpt.com). Acesso em: 24 maio 2026.
UOL VivaBem. Perfil da pesquisadora Tatiana Sampaio e avanços clínicos da polilaminina. Disponível em: [UOL VivaBem](https://www.uol.com.br/vivabem/?utm_source=chatgpt.com). Acesso em: 24 maio 2026.


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